Hoje, 02 de julho de 2026, chego pleno aos 69 anos.
Contemplar o amanhecer neste dia tem um significado levemente diferente do que estou acostumado. Há quem chegue aqui carregando esta idade como fardo. Eu a carrego como um rio segue com o que encontra pelo caminho: a terra das margens, as pedras do fundo, a chuva que caiu antes de mim. O que alguns veem como peso, entendo como substância.
Nasci na região do Bico do Papagaio, onde o Araguaia e o Tocantins se entrelaçam antes de, juntos, seguirem seu caminho.
Aprendi desde cedo que os rios não se lamentam. Eles simplesmente seguem. Seguindo, chegam.
Vi o sol nascer sobre o cerrado com uma cor que não cabe em nenhuma palavra que eu já aprendi. Senti o cheiro da chuva sobre a terra seca com uma gratidão que não pede motivo. Dormi noites que valeram anos e vivi anos que couberam em uma única tarde boa. A plenitude é a qualidade de uma vida que aprendeu a se encontrar.
Estive em lugares onde o vento fala outras línguas. Sentei em praças que viram histórias que eu nunca vou conhecer por inteiro. E acompanhando nesses dias a inauguração das últimas torres da Sagrada Família, em Barcelona, tive um insight sobre o que vinha aprendendo durante todos esses anos. Uma catedral que há mais de cem anos continua se erguendo, pedra sobre pedra, inacabada e mesmo assim inteira. O que aprendo com ela é que a plenitude não exige um ponto final. Há vidas, como há catedrais, que estão plenas justamente porque ainda seguem se fazendo.
Em todo lugar, o que eu encontrei foi eu mesmo, olhando. O mundo interior não muda de endereço. Você pode estar no Japão ou na beira do Araguaia, e ele está lá, esperando que você preste atenção.
Sessenta e nove anos me ensinaram isso.
Quando nasci, o céu estava sob a regência do signo de Câncer. O apreço pela memória, pelo afeto e pela paz são marcas que envolvem e abraçam como se me tomassem para si. Foi com elas que aprendi sobre resiliência, pensar bem antes de agir, acolher e repreender na medida certa.
Completude é uma postura. É acordar sabendo que a vida já valeu, mesmo que o dia de hoje seja simples. É olhar para trás sem ressentimento e para frente sem pressa. Ainda há coisas a aprender, pessoas a encontrar, palavras que ainda não tomaram sua forma. Isso não é urgência. É sorte.
Sou grato a Deus pela família, pela terra que me formou, pelo trabalho que ainda me convoca. Pelas amizades que resistiram ao tempo. E pelo tempo em si, que foi o mais generoso comigo.
Sessenta e nove anos. Que os próximos venham com a mesma graça.
Conselheiro José Wagner Praxedes