Salve Maria, Ave Senhora

Antes d’Ela, era a Trindade.

A capelinha que Pedro Cinzas levantou em 1825, na barranca alta do Tocantins, foi erguida em nome dos Três que são Um. Depois veio frei San Vito e a rebatizou de Nossa Senhora da Conceição. Só em 1888, quando a paróquia passou às mãos de três jesuítas, é que alguém se deu conta que Porto Franco, na outra margem, festejava a mesma Santa no mesmo 8 de dezembro. Trocaram então a invocação. Mandaram vir de Portugal uma imagem nova, custeada pelo doutor Barbosa, e passaram os festejos para agosto.

Foi assim que Ela chegou. Dentro de um caixote, pelo rio, por mãos de homens comuns. Nossa Senhora da Consolação não baixou sobre Boa Vista num rasgo de claridade. Veio de barco, devagar, como veio quase tudo o que existe por aqui. E ficou.

Ficou de um jeito que hoje já não se sabe onde termina a história da Igreja e onde começa a história da cidade. A matriz que virou catedral esteve à frente de tudo: das primeiras escolas, das brigas de coronéis, das eleições, dos socorros na enchente, do cemitério que leva o seu nome e das inúmeras “Consolação” que nasceram de lá para cá. Quem quisesse contar Tocantinópolis pela política ou pela economia acabaria, mais cedo ou mais tarde, subindo a ladeira da praça e batendo na mesma porta.

Ela também apanhou junto com a cidade. No tempo em que os coronéis se guerreavam, diziam que a imagem era amuleto de padre João, e conta-se que dez homens tentaram arrancá-la do nicho sem conseguir, e que um deles, de raiva, lhe abriu o rosto a facão. Os Apinajé a queriam de volta, porque diziam que Ela era deles.

O tocantinopolino a trata como quem trata de mãe. Pede baixinho, reclama, promete, some, volta. De 6 a 15 de agosto a cidade inteira se arruma em torno d’Ela: a novena, o arraial, o leilão, a peregrinação em todas as paróquias do município, os barcos enfeitados dando um giro no rio em sua homenagem… ah, e aquela primeira noite que padre João entregava às mulheres da vida, as que ninguém queria ver na missa e que Ela nunca recusou.

Talvez esteja aí o segredo do hino que se canta na novena e que, num descuido lindo, chama Maria de Deusa:

Salve Maria! Ave Senhora!
Deusa da nossa inspiração
Rainha és tu lúcida aurora
Recebe, pois, nosso coração.

Viva a Virgem da Consolação! Viva Pedro Cinzas! Viva a eterna Boa Vista do Padre João!


Conselheiro José Wagner Praxedes
15 de agosto de 2026