Os primeiros dias do Tocantins, idos de 1989, foram bastantes difíceis. Miracema, a capital provisória, era uma cidade sem o mínimo de planejamento e infraestrutura. As coisas iam se ajeitando do jeito que podia, ou seja, no machado bruto.
No Tribunal de Contas, a coisa não era diferente. Andávamos meio perdidos, atarantados, tentando estabelecer um padrão nos serviços do dia a dia.
O nosso primeiro presidente, conselheiro Antônio Gonçalves (já falecido), era um homem aguerrido, que se preocupava com tudo e com todos. Em termos de gestão, podemos dizer que era um chefe exigente, perfeccionista, daqueles que dava uma ordem e esperava ser atendido prontamente, sem discussão. No jargão popular era um “chefe brabo”. Quem o conhecia de perto sabia que ele, no fundo, era compreensivo e espirituoso, do tipo apaziguador. Mas de cara, todos temiam o Dr. Gonçalves. Ele acompanhava de perto tudo que acontecia no Tribunal, dos pequenos aos grandes problemas. Absolutamente tudo passava pela mesa dele. Quando o Dr. Gonçalves pedia qualquer coisa, simples ou complicada, tínhamos que dar um jeito de fazer de forma rápida e eficiente.
Um belo e ensolarado dia, ele mandou chamar um funcionário juntamente com o único motorista da Casa, Sr. Luiz Matos, que dirigia um chevette branco (também o único veículo da Instituição). O chevette vivia engasgando pelas ruas da capital provisória Miracema. Meu Deus! Aquele carro nos deu mais trabalho que a instalação do Tribunal! Pois bem, ao adentrar a sala do Presidente, os dois funcionários ouviram a seguinte ordem, naquele tom imperativo de quem quer matar um:
– Vão buscar e tragam até minha presença, agora! o senhor Parsondas.
Os dois coçaram a cabeça, e sem coragem de perguntar mais nada, saíram desesperados à caça do Parsondas. Um sujeito de quem nunca tinham ouvido falar e nem sequer sabiam que existia. O bendito chevette rodou tanto, que não esfriou o motor durante todo o dia. Rodaram as ruas e praças da empoeirada Miracema e, nada. Desciam do chevette, perguntavam pelo Parsondas a todo vivente que encontravam e nada… ninguém conhecia o homem.
Danou-se! Lá pelas tantas, já sem saber o que fazer, eles encontraram um senhor, perguntaram o nome dele, trocaram um olhar de alegria entre si, botaram o homem dentro do carro, e rumaram para o Tribunal. O chevette saiu cuspindo fogo pelas ruas de Miracema.
Chegando ao Gabinete, o motorista, Sr. Luiz, foi quem falou ao presidente num tom resoluto:
– Oiá Dotô Antônio, procuramos esse tal de Parsondas por todos os lados e como não encontramos, topei com esse aqui que se chama Carsondas, então resolvemos trazê-lo pro senhor. Serve?
Espirituoso, nosso presidente não aguentou e caiu em uma gargalhada sem fim – daquelas que lhe eram típicas. Pediu desculpas e dispensou o pobre do Carsondas.
Eu, cá com meus botões, contador deste causo e testemunha ocular da história, fico a pensar que Deus ajuda os bem-intencionados e puros de coração. Se achar um Parsondas já era difícil, imagine um Carsondas! O que nós pioneiros fizemos para sobreviver naqueles idos de 1989 só tendo muito sangue no olho. E, como um conto leva a outro, me lembrei de uma amiga que tinha uma lanchonete lá em Araguatins, no Bico do Papagaio. Quando o freguês chegava perguntando se tinha suco de laranja, ela respondia:
– Não, mas tem caldo de ovo.
Moral da história: ser pioneiro é para os fortes.
NOTA DO AUTOR:
Sr. Luiz Matos – “o motorista”, ainda trabalha no TCE;
Parsondas – “o procurado”, hoje é auditor neste Tribunal;
Carsondas a quem interessar possa, eu estou oferecendo um chevette branco “novim” pra quem quiser percorrer as ruas de Miracema atrás dele. Só não vale me chegar aqui com o Nifondas.