Pit Dog do Pau Pelado

Bem no início de Palmas, assim que aconteceu a mudança da capital provisória, Miracema, para cá, uma funcionária do Tribunal de Contas, incentivada pelos colegas, abriu em frente à sua casa um quiosque – tipo barzinho improvisado, que virou um ponto de encontro dos servidores da Casa. Após um dia de trabalho estressante e empoeirado, era pra lá que todos partiam em busca de molhar a garganta e bater um papo animado.

O barzinho ficava na Vila dos Deputados – a primeira quadra habitada da capital Palmas, e ficou conhecido como Pit Dog do Pau Pelado. A Vila era a ARSE 14, que hoje é a 110 Sul. Para lá foram os primeiros funcionários de Palmas, os secretários de Estado, os parlamentares… O nome engraçado do bar se explicava pelo fato dele ficar embaixo de um pé de sucupira que, durante quase todo o tempo, ficava sem as folhas.

No Pit Dog do Pau Pelado, o verdadeiro clima de Palmas se apresentava. Um pouco pior ado, sob o sol escaldante, diga-se de passagem. De dia era um calor insuportável; de noite soprava uma brisa gostosa, agradável. Era aí que começava nossa penitência.

Naqueles tempos, não se encontrava nada fácil em Palmas. Se você não fosse precavido podia ficar sem comer no fim de semana por pura falta de ter o que comprar. Tudo era escasso e raro. Pois bem, no nosso barzinho do pau pelado a coisa não era diferente. Devido à dificuldade para transportar e fazer gelar as bebidas, a dona do pit dog estabeleceu uma cota rigorosa de cerveja para cada frequentador. Cada um consumia só a sua parte. Dependendo do dia, do estoque e da demanda, você podia beber mais ou menos. Aquilo era igual padecer no paraíso. Quando a pessoa entrava na segunda cerveja, ela já alertava:

– Vai devagar porque tenho que deixar para os outros, vamos ter que dividir por igual…

E o pior, era que ela era “braba”. Tinha gente que tentava se esquivar, ludibriar para aumentar a cota, mas não tinha jeito. Precisa ver os bêbados implorando por mais uma: dava pena. O cara podia entrar naquele estado de “delirium tremens” que ela não arredava o pé. Quando ultrapassava a cota, não tinha meio termo: a resposta ao pedido era um sonoro “não”. Ali definitivamente não tinha “jeitinho”, o controle externo e etílico funcionava rigorosamente.

Lembro de uma amiga que pedia, adulava, apelava pra amizade e tudo mais:

– Oh, mulher, só mais uma. Vai, por favor…

Não adiantava.

E assim seguiam nossos dias, bebendo pouco, curtindo um sol de rachar a moleira, mas todos felizes, naquele ar orgulhoso de pioneiros desbravadores. Na falta do que fazer, de opções de lazer em Palmas, qualquer paixão nos divertia. E, como há males que vem para o bem, ficou a lição: em tempos de bebida vigiada, o bom é que você não acorda de ressaca.