Coisas do Brasil

Dias atrás, vi em um encarte da revista VEJA várias matérias sobre o luxo e sofisticação que começam a se destacar em alguns setores da economia brasileira. Uma delas chamou a minha atenção – “O admirável mundo novo da DASLU”. Para quem não sabe a DASLU é a mais chique, cara e exclusivista loja de departamentos da América Latina. Localizada em São Paulo, em uma de suas marginais, num prédio estilo “neoclássico”, de 20 mil metros quadrados, em 4 andares e mais dois pavimentos subterrâneos para garagem; tem, também, no topo, terraço com um espetacular salão de festas (alugado em dias normais por uma bagatela de 80 mil reais) e, em se tratando só de clientela milionária/especial, não poderia faltar um heliporto, indispensável para quem quer chegar e sair discretamente, bem como fugir do infernal transito de São Paulo. A loja, é claro, tem todas as marcas mais chiques e caras do planeta – Chanel, Gucci, Valentino, Prada, LouisVuitton etc. Ao todo são 63 marcas, inclusive as quase populares, também caras, GAP e Banana Republic. Fazem parte, ainda, da loja dois restaurantes, um Champangne Bar, um SPA, um salão de cabeleireiro, setor de decoração de interiores, exposição de eletrônicos finos, como tvs de plasma de 71 polegadas, revendedora de automóveis, que costumamos ver só no cinema e tv (Jaguar, Volvo e MiniCooper), alem de uma infinidade de cantos aconchegantes, gazebos com luz natural e muitíssimas plantas.

A loja DASLU foi planejada, no seu interior, em forma de labirinto, com um espaço sempre acabando dentro do outro, de propósito, até porque ninguém vai até a DASLU para passear, olhar vitrine como em um Shopping Center. Vai até lá, com certeza, para consumir e gastar muito dinheiro. O espaço possui 30 guias orientando para que os clientes não fiquem perdidos e cheguem diretamente ao seu local desejado. São 72 caixas e as contas só são divididas nos cartões de crédito quando totalizam mais 600 reais.

Mordomias como os clientes receberem suas compras já na garagem (não carregando sacolas), cafezinhos com biscoitos finos, licores e até massagem nos pés, não faltam nessa loja.

Calcula-se que tenham sido gastos 50 milhões de reais na decoração da loja e outros 70 milhões na obra em si, tudo isso bancando pela inquilina, bem como pelo proprietário do imóvel.

O projeto foi idealizado por um grupo de 14 arquitetos. Como falei anteriormente, o prédio tem como estilo o neoclássico, todo em tons bege, com abundância de molduras e colunas. Diz a proprietária da loja, a empresária/socialite Eliana Tranchesi – “optei por este estilo para que a obra não corra o risco de ficar ultrapassada logo, como pode acontecer com o moderno”.

Outra coisa interessante é que do lado de fora da loja só um medalhão com uma imagem de Nossa Senhora de 2,5 metros quadrados ocupa o alto da fachada. E só. Diz a proprietária que letreiro com nome, como se sabe, não tem nada a ver com o jeito DASLU de ser.

Ouvimos todos os dias no rádio e na tv, assim como lemos nos mais diversos jornais sobre crises e mais crises pelas quais passa o povo brasileiro. Só que isso não faz parte da clientela desta loja, que já contabiliza hoje 45 mil clientes cadastrados, sendo 85% deles só em São Paulo.

E mais, para qualquer mortal ter acesso ao mundo DASLU – com exceção do espaço de festas e restaurantes, com entradas separadas –, todos precisam de identificação, ou seja, uma carteirinha pré-aprovada pela loja. Tudo isso para que o espaço não venha se transformar em atração turística, como os Shopping Centers – só entra no espaço quem passar pelo “crivo” rigorosíssimo de seleção de clientes.

Tudo isso na minha concepção é inovador, não creio que exista, nessa magnitude, algo parecido em nenhum lugar do mundo – Coisas do Brasil.