O mundo despertou nesta semana diante de uma notícia rara: depois de 144 anos em obras, a Sagrada Família enfim tocou o céu. Na quarta-feira, 10 de junho, em Barcelona, o Papa Leão XIV abençoou a Torre de Jesus Cristo, a última e mais alta do templo: 172,5 metros que fizeram dela a igreja mais alta do mundo. A cruz que a coroa se acendeu naquela noite e assim seguirá, brilhando, todas as noites sobre a cidade.
Confesso que, de tanto imaginar esse momento, meus pensamentos transbordaram para o sono: esta semana, cheguei a sonhar com a inauguração da Torre de Cristo. Na minha mente, o brilho daquela cruz não apenas iluminava Barcelona, mas costurava, finalmente, o céu à terra, como se a própria eternidade estivesse celebrando o fim da espera.
Já estive em Barcelona algumas vezes e, em cada viagem, fiz questão de voltar àquele canteiro como quem visita um parente, só para medir o quanto a igreja havia crescido desde a última vez. Vi o pó, os andaimes, os guindastes pairando sobre torres pela metade. Guardei aquilo como quem guarda uma promessa. Agora, vê-la concluída lá no alto, com a cruz acesa, é uma alegria que não cabe direito no peito.
Há ainda uma coincidência que me arrepia. Em 7 de junho de 1926, Antoni Gaudí foi atropelado porum bonde nas ruas de Barcelona; confundido com um mendigo por causa das roupas surradas, morreu três dias depois, em 10 de junho. Exatamente um século antes desta bênção. Foi como se o velho mestre tivesse reaparecido no céu da cidade só para aprovar o final da própria obra.
Nada disso, porém, foi fácil. A Sagrada Família atravessou duas guerras mundiais e a Guerra Civil Espanhola, que ateou fogo ao ateliê de Gaudí e reduziu a cinzas suas maquetes e seus desenhos originais em 1936, como se quisesse queimar junto o próprio sonho. Resistiu à falta de dinheiro, que mais de uma vez quase parou tudo, e até à pandemia da Covid-19, que esvaziou Barcelona e silenciou os canteiros. Nenhuma dessas tempestades a derrubou. O que reergueu as paredes e refez, peça por peça, aquilo que o fogo levou, foi a coisa mais simples e mais teimosa que há: a persistência de um povo inteiro, feita de fé e de boa vontade.
Os desenhos de Gaudí eram como reza com lápis. Passou os últimos anos de sua vida dentro da construção, dormindo no canteiro, comendo o pouco que cabe num homem de fé. Quando cobravam a demora, respondia, sereno: “O meu cliente não tem pressa.” Hoje ele descansa na cripta da igreja, debaixo do sonho que não viu de pé, e que o Vaticano reconheceu ao declará-lo venerável, primeiro passo rumo aos altares. Chamam-no, com razão, de o arquiteto de Deus.
Há mais poesia na pedra do que se imagina. São dezoito torres: dezesseis delas dedicadas aos que sustentaram a fé — os doze apóstolos e quatro evangelistas. Sobre elas se ergue a de Maria e, no centro, mais alto que tudo, Cristo. Isso é um credo que aprendeu a ficar de pé por meio da arquitetura, uma catequese feita de cores e luz, como bem definiu o próprio Papa.
E talvez o detalhe que mais me toca: nada disso custou um centavo de dinheiro público. Desde 1882, cada pedra subiu graças à doação do povo: moeda de fiel, troco de pobre, oferta de quem passava e deixava ali um pedaço de si. Uma catedral, no sentido mais literal, feita de gente. Por isso é Patrimônio da Humanidade. Por isso atravessou o tempo e gerações inteiras sem perder a elegância nem a fé.
Penso nos milhares que partiram sem ver o fim, confiando que outro terminaria por eles. Que coragem é essa, a de plantar a sombra de uma árvore debaixo da qual não vamos nos sentar?
Encerro como quem aplaude de pé: parabéns aos catalães, ao povo de Barcelona. Entregaram à humanidade inteira um presente que não tem preço e, agora se vê, não tem fim.