
Nesta semana, recebi com pesar a notícia da morte de Yayoi Kusama, aos 97 anos, em Tóquio. Poucos artistas do nosso tempo tiveram a coragem que ela teve: transformou as alucinações que a acompanhavam desde a infância em pontos, redes e abóboras que o mundo inteiro aprendeu a reconhecer. Fez da própria fragilidade matéria-prima de uma obra luminosa, e nisso há uma lição que ultrapassa em muito o campo das artes visuais.
O seu trabalho me foi apresentado pelo amigo Fabio Lobo-Vieira, e tive o privilégio de visitar uma de suas exposições em Londres, no ano de 2018, na galeria Victoria Miro; saí de lá verdadeiramente encantado. Entrar em uma de suas salas de espelhos é uma experiência difícil de traduzir em palavras: a sensação é a de que o espaço não termina, de que aquele mundo de luzes e cores se estende para além de qualquer parede. Daquela data em diante, passei a mergulhar em seu universo praticamente todos os dias. Guardo até hoje a impressão daquele instante, em que uma artista japonesa, então já com mais de oitenta anos, conseguiu me devolver um espanto que costumamos perder com o tempo.
Fica a obra, que segue viva nos museus, nas galerias e na memória de milhões de pessoas que atravessaram suas salas. Kusama passou as últimas décadas da vida morando por vontade própria em uma instituição psiquiátrica em Tóquio, e todos os dias atravessava a rua para pintar no ateliê em frente. Trabalhou até o fim, aos 97 anos, com a mesma devoção de quem entendeu cedo que criar não era escolha, mas necessidade. Que sua trajetória sirva de lembrete de que a arte tem esse poder raro de acolher aquilo que não sabemos nomear em nós mesmos e devolver ao mundo em forma de beleza. Como sua arte, Yayoi Kusama é infinita.